MUDAR MENTALIDADES NÃO É FÁCIL
Tenho 80 anos!
Hoje, dia 24 de Dezembro de 2025, vi e ouvi, no canal televisivo TVI, entre as doze e as treze horas, uma senhora de nome Cristina Ferreira, afirmar convicta, assertiva, que os cidadãos portugueses com mais de 80 anos deveriam através de legislação ser impedidos de obter carta de condução e consequentemente ser impedidos de conduzir uma viatura.
Se nas redes sociais ou em conversa de café, um qualquer cidadão, dito comum, fizesse uma afirmação semelhante, não viria “mal ao mundo”, mas já o mesmo se não verifica e deve ser levado em conta quando num canal aberto de televisão, num programa com alguma audiência, uma pessoa responsável pela condução do programa faz afirmações como as que refiro.
Na base da afirmação, que a Srª D. Cristina Ferreira fez, está a justificação que a partir dos 80 anos os cidadãos terão as condições físicas e mentais diminuídas.
Esta justificação só por si é perigosa na medida em que, com base nela, poderiam advir outros impedimentos como, por exemplo, o direito de votar, o direito de gerir os próprios bens, o direito de decidir sobre a própria saúde e, muito mais. E tudo APENAS por que se tem 80 anos ou mais.
O que a Srª D. Cristina Ferreira não disse, talvez por ignorância, é o que a legislação portuguesa, designadamente o Artª 13º da Constituição da República Portuguesa, dispõe:
Todos os cidadãos são iguais perante a lei.
Ninguém pode ser prejudicado ou privado de direitos por motivo de idade.
(Em abono da verdade diga-se que naquele programa uma das participantes evocou (en passant) a Constituição para contrariar a possibilidade da promulgação de uma lei proibindo a condução a “velhos”)
É uma realidade que o idadismo está a ser um problema em Portugal e, infelizmente, afirmações como as da Srª D. Cristina Ferreira contribuem para que essa realidade possa ter uma progressão maior.
É uma evidência (e só por ignorância se permite afirmar o contrário) que a lei proíbe a discriminação por idade, mas não impede que seja salvaguardada a segurança do próprio e de terceiros. E essa salvaguarda já é feita através da obrigação de renovação mais frequente da carta de condução e da exigência de atestado médico para avaliar capacidades físicas e cognitivas, mas nunca, NUNCA, de uma exclusão automática em função da idade como defendeu a Srª D. Cristina Ferreira.
O que a Srª D. Cristina Ferreira deveria ter exigido e alertado de forma tão assertiva como o fez ao defender a proibição de conduzir a partir dos 80 anos, seria exigir total transparência (se é que a não há) na passagem dos atestados médicos para avaliar as capacidades físicas e cognitivas ou, até e também, que o prazo para renovação da habilitação de conduzir para cidadãos com mais de 80 anos passe a ser anual.
A discriminação em função da idade (idadismo) tem de ser combatida no seio da sociedade (pois que legislação já existe) e afirmações como a que fez a Sr.ª D. Cristina Ferreira não contribuem para isso.
Por mim rejeito que a comunicação social (e não só) continue a discriminar pessoas com mais de 65 anos de idade denominando, nos seus textos descritivos de acontecimentos, as pessoas como... o “idoso”. Não será o mesmo que referir uma pessoa com dificuldades de locomoção como... o “coxo”? Ou a alguém portador de uma paralisia como... o “paralítico”? A forma como se usa a linguagem também contribui para uma forma diferente de ver o outro.
MUDAR MENTALIDADES NÃO É FÁCIL que o digam associações como o “#stopidadismo”: https://stopidadismo.pt/
Rui Narciso - Sintra, 24 de Dezembro de 2025

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